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Crónica breve (III) - Por Francisco Caetano

por Helder Robalo, em 07.02.09
CRÓNICA BREVE (III)
Festa do Verão


Festas, de arromba, maiores que as de Aldeia, talvez, num ou noutro ano, só as da Orca. Também nas Martianas, uma vez por outra, era larga a festança.

Hoje, a par da procissão, podemos dizer que o momento principal e móbil ajuntador das famílias e amigos é o frango assado no recinto das festas, umas gasosas e umas grades de minis, um ou outro conjunto, de nome mudado para banda. Já não há emigrantes para mostrar as máquinas e poucas são já as moçoilas para se fazerem inveja com as roupas novas.

Antes, o que dominava era a procissão e o leilão das merendas à tardinha e pela noite dentro.

Os andores iam, então, cobertos de notas de 20, 50, 100 e até 500 escudos, ainda ditos de réis, pregados nos santos com aranhóis (alfinetes), logo seguidos de perto pelo senhor prior que, a coberto do pálio, ia rezando pelas almas e para que a brisa se mantivesse calma e os alfinetes cumprissem o seu papel.

Quem espetasse a maior cédula ganhava direito não só a que a proeza fosse comentada nos próximos dias, no povo, mas também a alombar com o santo.

O que não era fácil, sendo embora 4 os pegadores, à passagem pelo Regedor já um ou outro desasava, fazia a parte que pegava, sobrando o peso para quem tivesse menos ronha ou, vá lá, maior fé, que era o que valia a tanto sufoco dos agostos de antanho.

O dinheiro era de promessas, feitas durante o ano, fosse ao Mártir S. Sebastião, fosse à padroeira Santa Margarida, de forma a intercederem pela saúde de quem as fazia ou de familiares ou mesmo de animais, quase sempre um jumento, pelo valor que tinha, como meio de transporte, como pela falta que fazia na arada das terras.

Ainda que a Santa Margarida seja a padroeira, o Divino Mártir, costumava levar a melhor fosse por inspirar maior confiança, fosse porque a prédica do senhor padre empolgasse ao extremo os seus dotes de valentia. E o impacto das suas façanhas sobre as pessoas era tanto maior quanto feito do alto do púlpito (esse altar lateral da igreja, que os mais novos nunca viram usar) com os gestos largos do inflamado sacerdote a roçar a cabeça das pessoas. O outro nosso António Vieira não passaria, aqui, de um aprendiz.

De tal forma que, de uma vez, conta-se, com tanta paixão descreveu a luta do santo contra o diabo e do diabo contra o santo, que fez isto, que fez aquilo, que o satanás, às tantas, pegou numa seta, apontou-lha ao coração e…pausa feita, respiração suspensa, corações parados, silêncio de chumbo, mulherio já a morder os lenços e o povo todo à espera do desenlace final…quando rebentou do coro: “essa é que o lixou!”.

Bom, ficou o santo padre desarmado, respiração e corações de volta, acabaria aí a missa, entre o choro de uns e a galhofa de outros tantos.

O outro momento importante era, pois, a arrematação das merendas.

Imagine-se o que era. Cestos e tabuleiros cheios de carnes, fritas e assadas, galos, coelhos, pernas de cabrito ou de borrego, com fino toque a bedum, arroz de hortelã para acompanhar e desenjoar, um pão leve (pão de ló) com uma garrafinha de vinho do Porto no buraco, bolo devidamente decorado com amêndoas espetadas, sobrantes ainda da Senhora da Granja ou da Senhora da Póvoa e doces (biscoitos), muitos, à volta. Um garrafão de vinho, claro! Quase sempre carrascão, mais para o escuro.

Quermesse à pinha, era aguardar que o roufenho funil da afamada aparelhagem Silva Tinalhas desse início à disputa, começando por anunciar o dono da oferta. Lenço no microfone, aí estava. Oferta de fulano de tal, preço inicial de tanto. A base de licitação era dada pelo dono. A partir daí era ver quem dava mais. Pica de um lado, pica do outro, volta a picar e repicar. Os da Christie's muito aqui tinham a aprender. 399 uma, 399 duas, 399, três... arrematado. Por vezes nunca os centavos valiam tanto. 199 e 10, o outro 199 e 20, outro ainda 199 e 30, uma, duas, e 40, agora ainda de um outro, uma, duas, duas e meia, duas e três quartos…

Era assim, dos oitavos não temos memória. Só dos de Vimeiro, no dia a seguir, após o acordeonista ter guardado o fole, ter-se posto fogo à peça e rebentado o castelo.

Era giro!..

Abraço

Fev. 09
FC

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publicado às 13:28


2 comentários

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De David Martins a 07.02.2009 às 16:23

Excelente crónica!!!
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De soly a 12.02.2009 às 22:05

Mais uma bonita tela.
Desta vez parece-me um óleo
Abraço
Soly

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