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Pedido de esclarecimento

por Helder Robalo, em 11.10.07
Descobri no blogue Cidade Cultural a referência a Marcelo Curto, como escritor nascido em Aldeia de Santa Margarida em 1937 e tendo falecido em 2001 (surge referenciado como Curto, Marcelo [Aldeia de Santa Margarida/Idanha-a-Nova, 1937 - 2001]).

Alguém me sabe dar mais informações sobre
Francisco Marcelo Curto, obras publicadas, etc.?

Agradecia que me enviassem todas as informações possíveis para o sítio do costume:
aldeiadesantamargarida@gmail.com

Obrigado pela atenção.


Actual: Encontrei, entretanto e enquanto pesquisa o nome pelo Google, um texto evocativo do Dr. Mário Soares a propósito do falecimento de Francisco Marcelo Curto, nosso conterrâneo. Foi escrito no Diário de Notícias, mas o texto é copiado da Acção Socialista. Desconhecia as suas ligações à nossa aldeia. Apesar de extenso, penso que me perdoam por o deixar aqui por inteiro.


Mário Soares

Na morte de um amigo a memória reacende-se

Morreu Francisco Marcelo Curto. Muitos amigos e velhos companheiros de luta prestaram-lhe uma comovida homenagem. Era um homem bom, solidário, muito fiel e fiável, sinceramente de esquerda. Acreditava - acreditou sempre - em causas generosas, na possibilidade de mudar, para melhor, a vida dos outros, principalmente dos mais carenciados e desprotegidos. Tinha convicções: com elas viveu e por elas lutou.
Antes e depois do 25 de Abril, foi um combatente intemerato da liberdade, tendo defendido, em especial, os direitos dos trabalhadores, o sindicalismo livre e a justiça social. Teve sempre um comportamento corajoso, em plena coerência com as ideias e os princípios que defendia. Foi, além disso, um homem honrado. Em certos períodos da vida, sacrificou tudo - profissão, família, lazer - ao seu total empenhamento político e sindical. Sem nada pedir em troca.
Nasceu em 1939 na Aldeia de Santa Margarida, Idanha-a-Nova. Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa. Participou activamente nas lutas estudantis dos anos sessenta. Viveu depois, como miliciano, a guerra colonial, em Angola. Deixou, aliás, um livro-testemunho desse tempo que tanto o marcaria, Não Viste nada de Angola.
De regresso a Lisboa, participou na vida política oposicionista supercontrolada do tempo. Nas fases ditas de «liberdade suficiente», abertas nos chamados «períodos eleitorais», por exemplo. Fez parte do movimento unitário MDP/CDE, que, no consulado de Marcelo Caetano, tentou abrir caminho para a legalidade. Marcou presença nos Congressos Republicanos de Aveiro. Foi candidato a deputado nas eleições-farsa de 1969 e 1973. E, sobretudo, foi um dos impulsionadores da ampla movimentação sindical que daria, mais tarde, lugar à Intersindical.
Após a última mascarada eleitoral da ditadura, em 1973, decepcionado por uma certa retórica oposicionista que dava poucos frutos - e face ao cerrado bloqueio em que se afundava então o País, num imobilismo espesso -, resolveu aderir ao recém-formado Partido Socialista, após o Congresso de Bad Munstereifel, realizado clandestinamente na Alemanha. Marcelo Curto não esteve presente no Congresso mas aderiu imediatamente a seguir - e por isso sempre foi considerado «fundador» do PS -, tendo participado na elaboração do primeiro programa do Partido. Para tanto, deslocou-se a Paris, no Verão de 1973, com Mário Sottomayor Cardia e António Reis - para um encontro, com esse objectivo, em que, pelo lado dos «estrangeirados», estavam: Ramos da Costa, Tito de Morais, Jorge Campinos, Coimbra Martins e eu próprio.
Foi então que conheci, pessoalmente, Marcelo Curto. A primeira abordagem não foi fácil. Lembro-me do seu radicalismo, próprio da época, que era de um esquerdismo avassalador: poder popular, controlo operário, auto-gestão, etc. As discussões político-ideológicas que mantivemos foram ásperas até termos encontrado o acordo possível. Fiz então, como já escrevi, várias concessões em termos teóricos, para ganhar uma geração que pouco tempo depois seria essencial - como foi - à construção PS e da Democracia.
Marcelo Curto tinha já uma considerável experiência sindical, que seguramente faltava a quase todos nós, com a excepção porventura de Ramos da Costa. Nós queríamos que o PS fosse basicamente «um partido de trabalhadores», como se dizia na época, o que, obviamente, estava muito longe de ser.
Marcelo Curto, advogado consultor de vários sindicatos - onde tinha adquirido uma experiência incomparável e um conhecimento efectivo dos quadros sindicais que actuavam no terreno - deu um contributo inestimável para a implantação do PS no mundo do trabalho.
Quando se deu o 25 de Abril - dia inesquecível! - Marcelo Curto pertencia já à direcção do PS. Era um dos seus jovens quadros, responsável pelo sector do trabalho. Jovem, digo, porque pertencia a uma geração posterior à do Zenha, do Catanho de Meneses, do Olindo de Figueiredo, do Tinoco de Faria, do Oliveira e Silva e à minha, e muitíssimo mais nova ainda em relação à dos nossos grandes predecessores (todos ainda vivos nessa altura): António Macedo, Cal Brandão, Álvaro Monteiro, Gustavo Soromenho, Magalhães Godinho, Tito de Morais, Raul Rego, José Ribeiro dos Santos, Eurico Ferreira, Herculano Pires, Teófilo Carvalho dos Santos, Fernando Vale, Costa e Melo, Strecht Monteiro, Sousa Pereira, Vasco da Gama Fernandes, Júlio Carrapato, António Portilheiro e tantos outros. Marcelo Curto era da geração de Manuel Alegre, António Campos, Lopes Cardoso, Carlos Candal, Jorge Campinos, António Arnault, Sottomayor Cardia, Maldonado Gonelha, José Luís Nunes, Fernando Oneto, Vitor Cunha Rego, Fernando Loureiro, Alfredo Barroso, Jaime Gama e tantos outros impossíveis de citar, que formaram a ossatura do PS e lhe deram consistência ideológica e implantação no terreno. Depois deles viriam os mais novos ainda, como António Guterres, que têm hoje responsabilidades no Governo, nas autarquias, nos sindicatos e no Partido.
O 25 de Abril transformaria radicalmente a vida de todos nós. Marcelo Curto, como quase todos os que detinham responsabilidades de direcção do Partido, tornou-se um militante socialista a tempo inteiro, abandonando o seu escritório de advogado e tudo o resto. Sem qualquer compensação material - como sucedeu a todos. Viveu - vivemos - em total fraternidade, intensamente, o período revolucionário de 1974 a 76 - as difíceis opções que se nos puseram, entre as utopias e a dura realidade que nos cumpria gerir, os riscos, as lutas, as responsabilidades, as discussões intermináveis, os momentos exaltantes das manifestações e dos comícios, as decepções, que não foram poucas, as pequenas e grandes vitórias e, sobretudo, as esperanças. Desde o primeiro dia, Marcelo Curto esteve sempre na frente mais dura do combate, onde o PS estava menos implantado: no terreno laboral. Foi, incontestavelmente, o principal organizador do PS no mundo do trabalho ajudado então pela Fernanda Lopes Cardoso. No momento do I Congresso na Legalidade, em Dezembro de 1974 - que constituiu um momento forte e decisivo no percurso do PS -, Marcelo Curto foi uma das vozes que defenderam a lista de que fui subscritor, ao lado de Manuel Alegre, Lopes Cardoso e do Manuel 25 (como era e é conhecido), trabalhador da Lisnave, em representação do Grupo Autónomo do Partido Socialista (GAPS). Esse Congresso, a que presidiu com punho forte Salgado Zenha - e que seria organizado por Vítor Cunha Rego, Tito de Morais, Catanho de Meneses, Xis Calheiros e Carlos Barroso - foi a primeira grande prova de fogo ganha pelo Partido.
Veio depois a grande luta contra a unicidade sindical, em Janeiro de 1975, e aí estiveram em cena - no inesquecível comício do Pavilhão dos Desportos - os mesmos dirigentes socialistas, naturalmente com Marcelo Curto. Daí surgiria o Movimento da Carta Aberta (vários meses depois), apoiada por grandes sindicalistas socialistas, como Torres Couto, António Janeiro, Mário Nunes da Silva, José Simões, Vítor Hugo Sequeira, José Mota, Barbosa de Oliveira, João Proença, Delmiro Carreira e outros, donde resultaria, muito mais tarde, em Outubro de 1978, a criação da UGT, com base num acordo político entre PS e PPD, negociado por Sá Carneiro e por mim. Mas isso já foi outra história, onde a grande figura, por parte do PS, seria Maldonado Gonelha, e em que Marcelo Curto marcaria as suas fortes divergências... O que não afectou, minimamente, a nossa amizade.
Com o 25 de Novembro de 1975 o processo de normalização democrática da Sociedade e do Estado entrou numa fase menos conturbada, embora ainda repleta de contradições. Formou-se o VI Governo Provisório, presidido por Pinheiro de Azevedo - um Governo importante - em que Marcelo Curto seria secretário de Estado do Trabalho. Votou-se a Constituição da República, em 2 de Abril de 1976. Elegeu-se pela primeira vez, directamente, o Presidente da República, general Ramalho Eanes. Foi eleita a primeira Assembleia Legislativa e, em consequência, foi formado o I Governo Constitucional. Marcelo Curto, naturalmente, foi o ministro do Trabalho, sendo substituído, meses depois, pelo seu secretário de Estado, Maldonado Gonelha. Iniciava-se uma nova página. Para trás ficavam os anos de brasa, exaltantes, da Revolução. Tratava-se de governar o País, de o tornar exequível, económica e financeiramente, e normal, em termos de uma democracia pluralista europeia. Tinha chegado o momento de requerer adesão à CEE, de sacudir a tutela militar e de tratar a sério do último dos DD da trilogia de Abril: desenvolver, depois de descolonizar e de democratizar. Marcelo Curto foi ainda deputado em várias legislaturas. Em 1981, no aguerrido e esclarecedor IV Congresso do PS, deu voz, com camaradas fiéis do mundo do trabalho, a uma moção intitulada «Esquerda laboral». As outras duas em disputa, eram «Um partido forte, um projecto claro», do chamado «ex-Secretariado», cujo primeiro subscritor foi Salgado Zenha; e «Novo rumo para o PS», de que fui o primeiro signatário. Foi um debate frontal e esclarecedor, dos que revigoram os partidos que têm a coragem de os propor.
A partir de então, com a mesma simplicidade com que entrara na política activa, Marcelo Curto foi paulatinamente regressando à vida profissional, que exerceu sempre com grande dignidade.
A doença, das que não perdoam, surpreendeu-o prematuramente. Antes de ser operado quis doar à Fundação Mário Soares toda a sua documentação e grande parte da sua muito significativa biblioteca. Sabia - tinha a certeza - que aí a sua memória seria guardada com cuidado e lembrada, com objectividade e rigor.
Vi-o, pela última vez, precisamente, na inauguração das novas instalações da Fundação. Saído de um longo internamento hospitalar, pareceu-me bem. Ele também me disse, com optimismo, que “o pior tinha passado”. Fiquei sossegado. Afinal, um mês e pouco depois, fui surpreendido com a notícia tristíssima da sua morte. É uma geração, posterior à minha, que começa a ser tocada: Campinos, Vítor Cunha Rego, Lopes Cardoso, Áurea Rego... A lei implacável da vida! Mas a memória permanece.

In «Diário de Notícias»

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